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Homenagem
O matreiro Sebá e suas aprontações ganham nossa homenagem!

Por duas vezes Sebá nos deu um grande susto durante o Janeiro de Grandes Espetáculos. A primeira em 2006, quando veio ao Teatro de Santa Isabel com a peça Olha Pro Céu, Meu Amor, exatamente no período em que enfrentava a luta contra um câncer. Tivemos medo que não conseguisse viver a personagem Bom Cabelo, quase todo o tempo da peça em cena, mas ele conseguiu brilhantemente, tanto que recebeu um prêmio especial do júri pelos 23 anos de atuação naquela montagem, que este ano volta ao Recife para abrir nossa programação 2017 com elenco renovado.

O segundo susto aconteceu em 2013, com a peça Auto das 7 Luas de Barro, tendo ele como protagonista no papel do Mestre Vitalino. Horas antes da sessão no Teatro Barreto Júnior, ele passou mal, teve que ir ao hospital às pressas, e por pouco não desistiu da apresentação. Tirou forças não sabemos de onde, mas conseguiu subir ao palco e ser fortemente aplaudido ao final, como o grande artista que é. Ator, mamulengueiro e produtor, Sebastião Alves ou Sebá aos mais íntimos é, de fato, um guerreiro!

Desde 1990 à frente do Grupo Feira de Teatro Popular, da cidade de Caruaru, sua trajetória de vida daria não só apenas uma peça de teatro, algo que já aconteceu na história da equipe caruaruense com a peça Olha Pro Céu, Meu Amor, mas um grande filme, daqueles que ele assistia enquanto criança. Natural de Sertânia, desde pequeno trabalhou como catador de algodão, padeiro ou entregador de pães. Não via teatro, mas sabia que queria ser artista. “De tela grande”, diz.

Partiu para o Rio de Janeiro com este sonho, mas só conseguiu emprego nas obras do Metrô como marteleteiro. Um dia antes de mudar-se definitivamente para Caruaru, indo a uma praça carioca conhecida como point de celebridades, foi atropelado por uma ambulância. “Queria ter certeza que aqueles artistas eram reais”, recorda. O envolvimento com o teatro aconteceu na capital do Agreste, paralelamente ao trabalho como fiador de aviamentos, quando foi chamado para atuar na peça Solte o Boi na Rua (1979), de Vital Santos, com o Grupo de Teatro Ivan Brandão, dirigido por Nildo Garbo.

Já no Festival Nacional de Teatro Amador, em Ponta Grossa, ouviu de um jurado: “Sua expressão é muito boa. Onde aprendeu?”. E ele respondeu: “Assistindo televisão!”. Em 1980, entrou como ator substituto na peça Auto das 7 Luas de Barro. “Estreei como um dos filhos de Vitalino no Grupo Feira, já circulando pelo país”, e não largou mais a equipe. Na aclamada montagem, passou a ser o próprio protagonista Vitalino desde 2009, em substituição ao falecido ator Cosme Soares.

Em 1981, no elenco de A Noite dos Tambores Silenciosos, contou sua história de vida aos companheiros de cena. A experiência tragicômica em terras cariocas deu mote para o dramaturgo e encenador Vital Santos criar o espetáculo Olha Pro Céu, Meu Amor em 1983. Sebá passou a interpretar Bom Cabelo, um poeta popular que larga Caruaru e vai conhecer Roberto Carlos no Rio no sonho de se tornar famoso, mas só consegue ser funcionário das obras do Metrô.

Graças a uma cena com tenda de bonecos em A Noite dos Tambores Silenciosos, apaixonou-se pelo mamulengo. O resultado foi a criação do Mamusebá em 1985, com apresentações para crianças ou adultos, reunindo personagens divertidos como Benedito, Tenente Zeca Galo ou Filomena, e onde o improviso é certeiro. A paixão foi tanta, que ele transformou sua própria casa no Teatro Garagem Mamusebá, posteriormente com outro palco no centro de Caruaru, além de ter criado a Cia. Pernas Prá Circular em 2002, com encenações em pernas de pau.

É por essas e outras que o nosso querido Sebá tinha, sim, que ser o grande homenageado deste 23º Janeiro de Grandes Espetáculos! Avante, guerreiro! Mas sem outros sustos, por favor...

Por Leidson Ferraz