Homenagem

Claudionor Germano
Por Leonardo Dantas Silva

Ao surgir a Fábrica de Discos Rozenblit em 1953, para intérprete do disco de lançamento foi lembrado, por Nelson Ferreira, o nome de Claudionor Germano.
Assim, sob o selo Mocambo de nº 15000-B, matriz R–501, surgiu a sua primeira gravação no frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes, orquestra da PRA 8, sob a regência do próprio Nelson Ferreira.

Claudionor Germano da Hora nasceu no Recife, em 10 de agosto de 1932, iniciando a sua carreira artística na Rádio Clube de Pernambuco, em 1947, transferindo-se depois para a Rádio Tamandaré e, finalmente, para a Rádio Jornal do Commercio, onde teve oportunidade de atuar sob a direção do maestro Guerra Peixe.

Foi durante anos cantor oficial da Orquestra de Nelson Ferreira e, a partir do Carnaval de 1954, passou a integrar o cast da Fábrica de Discos Rozenblit. Sob o selo Mocambo, veio a gravar, em 1959, os discos long plays Capiba – 25 anos de frevo (LP 40039) e Nelson Ferreira – O que eu fiz e você gostou (LP 40040), no que foi seguido em 1961 com Carnaval começa com C de Capiba (LP 40053) e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira (LP 40054), que vieram consagrá-lo o mais importante intérprete do frevo-canção de todos os tempos.

Gravou ainda Sambas de Capiba (LP 40044), em 1961, com destaque no lado B para A mesma rosa amarela (Capiba e Carlos Pena Filho): um dos principais sucessos da bossa-nova por ele lançado nacionalmente em março de 1960: disco 78 R.P.M., Mocambo n º 18877.

Entre 1966-68 participou como finalista das três versões do Festival Internacional da Canção Popular, defendendo Canção do amor que não vem (Capiba), São os do Norte que vêm (Capiba e Ariano Suassuna) e Por causa de um amor (Capiba).

No âmbito do Carnaval, além das dezenas de discos em 78 R.P.M. e dos LPs consagrados, foi responsável pela interpretação das séries Baile da saudade v. I e II, O bom do Carnaval e algumas faixas do Capital do frevo, produzido anualmente pela Mocambo, com as músicas inéditas de cada ano.

Foi ele presença constante em todos os festivais da Música carnavalesca, notadamente do Frevança (1979-89) e Recifrevo (1990-95), participando ainda das excursões do Voo do frevo por duas vezes nos Estados Unidos (Miami e Nova Iorque) e ao Japão (Tóquio).

Graças a sua invejável memória, que lhe dá a facilidade necessária de decorar todas as letras de sua bagagem de intérprete, aliada à pronúncia exata e a dicção perfeita, bem como a facilidade na mudança de tons e o conhecimento do estilo de cada compositor, Claudionor Germano vem sendo o mais requisitado intérprete do Carnaval pernambucano. Quando do surgimento da Frevioca em 1980, orquestra volante com 28 músicos criada pelo autor destas notas visando a animação do Carnaval do centro do Recife, coube a Claudionor Germano e ao maestro Ademir Araújo participar por muitos anos daquela volante do frevo.

Para o historiador José Ramos Tinhorão, Claudionor Germano consegue um privilégio de que poucos artistas podem se orgulhar: sem sair de sua terra, pode ser ouvido – e suas interpretações neste disco comprovam isso – como uma autêntica voz nacional.


Fátima Freitas
Por Marcondes Lima

Posso dizer que conheço Fátima Freitas desde menino ou quase. Nos idos de 1987, eu era infinitamente mais matuto que agora, mal completara 21 anos, estava prestes a sair da universidade e tinha um futuro incerto pela frente. Foi quando ela surgiu diante de mim, para imprimir nessa narrativa um ar feérico de balé, como uma linda fada-madrinha. E já chegou me propondo um grande desafio: vestir personagens e palco no espetáculo Branca de Neve e cirandas infantis, uma criação que dividia com Ulisses Dornelas
– o Palhaço Chocolate.

Com olhos treinados para identificar jovens talentos em suas aulas de dança, com a generosidade que é própria das grandes mestras, ela viu em mim algo que nem eu mesmo enxergava. Essa é uma capacidade que mantém até hoje. É só olhar a quantidade de artistas da dança que foram e continuam sendo guiados por suas mãos, espalhados pelo mundo.

O seu entusiasmo contagiante e arrebatador me fez amar essa arte. Não tenho dúvidas que foi ali que comecei a bailar, apesar de nunca ter feito sequer uma aula de balé, invisível aos olhos dos espectadores. É verdade: quem cria roupas segue dançando com elas. Por mais de dez anos ininterruptos, Fátima me propiciou laboratórios de experimentações criativas que serviram como verdadeira escola de formação para o cenógrafo e figurinista que hoje sou. Passaram-se mais de 30 anos e ela continua a manter a determinação, a firmeza de propósitos, a mesma capacidade de sonhar. Nem o tempo nem as dificuldades a entroncharam. Mastigar pessoas, para depois cuspi-las fora, parece ser um dos passatempos favoritos da Recife “cruel cidade”, nos dizeres do poeta Carlos Pena Filho, “água sangrenta, leão”.

Mas quem disse que algum dia isso abalou as bases dessa mulher que veio ao mundo na beira do Rio São Francisco e que viveu sua primeira infância no sertão pernambucano? Creia! Tivemos a mesma “educação pela pedra”, e fico envaidecido ao perceber que temos essa herança sertaneja em comum, além do amor pela arte a que devotamos.

Sempre me impressionou a forma como essa mulher tem se desdobrando nos papéis de professora, bailarina, coreógrafa, diretora artística, empresária, mãe e avó; sem sair do prumo, sem perder o rumo. Empreendedora como nunca vi: incansável, ousada e destemida, dentro e fora dos palcos. Fatinha é admirável como artista e como pessoa.

Esta homenagem do Janeiro de Grandes Espetáculos é mais do que merecida. Fico imensamente agradecido por fazer parte dessa grande e linda família de artistas pernambucanos que ela tão bem soube amparar e nutrir. Um imenso beijo pra você, minha madrinha de cena.


Isa Fernandes
Por Augusto Maia Leite

Movida pelo amor aos palcos, Isa não deu ouvidos para os questionamentos, que começaram no curso de Direito, de que teria de escolher entre advogar e atuar. O conservadorismo da toga não enxergava que, ao defender um personagem, uma direção, uma montagem, o ator é advogado de causa própria em prol de um bem maior. Dividiu a produção, entre diversos espetáculos, de Tem um psicanalista em nossa cama, com Ronildo Maia Leite, marido e jornalista – sucesso de bilheteria e fruto de uma parceria para lá de arrojada. É, portanto, com muita determinação que ela tem pautado não apenas seus 50 anos de teatro, mas uma existência dedicada à celebração da vida como atriz, advogada, mulher, mãe e, acima de tudo, guerreira.

O teatro é uma arte pulsante. E Isa Fernandes, além de ser generosa e cativante, pulsa e se atreve como atriz, numa entrega ritualística, disciplinada e extremamen- te criativa e humorada. Trago em mim uma alegria profunda por ter compartilhado o projeto O doce blues da salamandra, eu como diretor e ela como atriz. Isa me deu o encantamento da interpretação vigorosa e apaixonante. E descobri que em Isa Fernandes mora uma atriz ousada e feliz, uma mulher artesã da arte que abraçou amorosamente.

Patrimônio vivo do teatro pernambucano, já não é sem tempo que os produtores deste festival incluem Isa Fernandes entre seus homenageados. Em um dos seus mais recentes trabalhos, Um sábado em trinta, pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), Isa Fernandes mostrou no papel da protagonista Sá Nana que fez, faz e fará sempre jus ao aplauso e reconheci- mento das plateias que a admiram.


Sônia Biebard
Por Luís Reis

Pediram-me para escrever sobre Sônia Bierbard. Aceitei de pronto, com muita alegria – e avisei logo: vai ser texto de fã. Só depois fiquei sabendo que eu teria apenas 20 linhas para compor esta apresentação. Mas só 20 linhas? Tudo bem, vamos lá. Afinal, nem mesmo em 200 linhas eu conseguiria resumir a grandeza e o brilho desta artista fascinante e deste ser humano extraordinário que é Sônia.

Portanto, nestas breves palavras, por economia de espaço, não poderei falar da Sônia professora, da Sônia publicitária, da Sônia profissional de relações públicas, da Sônia palestrante, da Sônia roteirista, da Sônia assessora de comunicação, da Sônia empreendedora cultural... Vou enfocar a Sônia artista, irradiadora de uma luminosidade rara, que espalha beleza e emoção pelos palcos em que pisa e pelas páginas que escreve.

Sim, sei que ela também enche de poesia todos os demais âmbitos de sua vida, mesmo quando realiza tarefas não diretamente ligadas à arte; mas o que deve ganhar destaque, aqui, é a Sônia Bierbard atriz e poeta, que há muito tempo encanta espectadores e leitores, com o seu talento, com a sua coragem, com a sua inteligência e com a sua sensibilidade, sempre traduzindo de maneira precisa e surpreendente as grandes questões humanas, as dores e as alegrias de viver.

Acompanho com muita atenção a carreira de Sônia, desde o início dos anos de 1980. No palco, o seu magnetismo a distingue, cativando rapidamente os espectadores. Seja como protagonista, seja como coadjuvante, a sua presença em cena é, a um só tempo, um deleite e um assombro. Sônia nos faz rir, Sônia nos faz chorar. E, invariavelmente, ela nos faz pensar, refletir. Sônia nos interpela. Não por acaso, esteve nos elencos de algumas das mais marcantes produções teatrais produzidas nesta terra nas últimas quatro décadas, trabalhando com alguns dos mais importantes encenadores do teatro recifense. Em sua bela trajetória no teatro, um projeto, concebido e executado por ela, merece especial menção: as diversas edições do Poesia ao vivo, criando espetáculos em que homenageia, de modo simples e tocante, os seus poetas mais admirados, ao passo que celebra o privilégio de viver na arte.

Como autora, Sônia Bierbard já publicou uma peça teatral e três coletâneas de poemas, uma delas voltada prioritariamente para as crianças. Em sua produção literária, assim como no teatro, ela se coloca por inteiro: com graça, com força e com sabedoria. Por isso, estou certo de que seguirá escrevendo livros, e que eles serão cada vez mais lidos e amados.

Sei que, a esta altura, as tais 20 linhas já se tornaram mais de 30, porém não posso terminar este texto sem dizer que considero este tributo a Sônia Bierbard um enorme acerto deste festival. Vejo esse gesto como uma sincera tentativa de agradecimento por toda a arte que essa paulistana, já tão profundamente recifense, nos tem dado desde que decidiu construir a sua vida e a sua carreira aqui em Pernambuco, invertendo o fluxo migratório que em geral leva nossos talentos para o famigerado eixo Rio-São Paulo. Bravo, Sônia! Aplausos fortes e emocionados para você. Hoje e sempre.


Suzana Costa
Por Adriana Falcão

Paixão, talento, obstinação, humor, atrevimento, doidice, carisma. Essas foram as palavras que me vieram à cabeça, no que me pus a pensar em como apresentar Suzana Costa.

Foi lá nos anos 70 que comecei a ouvir falar do seu nome. Quase sempre em contextos um tanto surpreendentes para o Recife daquela época.

- Suzana Costa virou vedete. Jura? Do Vivencial Diversiones. Esse povo de teatro é tudo doido. Vai fazer uma peça! Virou atriz, foi? Foi. A censura proibiu o texto. Olha só a força que essa menina tem no palco. Virou uma mulherão! Um furacão. Virou uma grande atriz. Só faltava agora virar produtora. Skene Produções. Montar um Nelson Rodrigues, com essa idade? Diz que ela vai ficar nua no palco. Cheia de novidades, essa Suzana Costa.

Nunca vou esquecer de uma tarde, no Centro de Artes da UFPE, em que Suzana fez uma performance com o bailarino Bernot Sanches, no meio do saguão. Eles dançavam, saltavam, giravam. E de repente me bateu uma dúvida, questão existencial: “Será eu vou conseguir ser uma mulher livre algum dia?”.

Muito tempo passou, transformando tudo.

Hoje temos uma geração cheia de garotas conscientes dos seus direitos, do espaço que podem, e devem ocupar. Graças a Deus, graças a elas.

Lá atrás, ainda não era assim. Naquela tarde, no hall do Centro de Artes, eu olhei pra Suzana, olhei pra mim, olhei em volta, e nos vi, uma porção de garotas, todas certinhas. Eram poucas as Suzana. Era bom que fôssemos mais.

Dos anos 70 para cá, Suzana escreveu, dirigiu, atuou e produziu peças de teatro, fez filmes, ganhou muitos prêmios, inventou projetos, engajou-se em causas sociais, fez filhos e netos. Continua atrevida, feliz e doida. Igualzinha. Sempre dando viradas. E não é que já deu outra?

Virou pintora.

Cheia de novidades, essa Suzana Costa.